No debate sobre a jornada 6x1, o professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV), José Pastore, afirmou ao jornal O Estado de S. Paulo que ganhos de produtividade não ocorrem de forma imediata. Segundo ele, esse avanço é resultado de processos graduais, como a qualificação da mão de obra, o aprimoramento da gestão empresarial e a incorporação de tecnologias mais eficientes. Para o economista, tais fatores não se materializam automaticamente a partir de uma simples redução da carga horária.
Na análise de Pastore, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 8/2025 apresenta como ponto sensível a imposição de uma diminuição da jornada sem considerar as particularidades dos estabelecimentos do setor de alimentação fora do lar. Ele ressalta que há diferenças significativas de produtividade entre as empresas. Algumas alcançam desempenho elevado por contarem com equipes qualificadas, gestão moderna e recursos tecnológicos capazes de otimizar resultados. Em alguns desses casos, argumenta, a redução da jornada de trabalho já é exercida.
O que não é a realidade de boa parte dos negócios ativos, como destaca o presidente da Abrasel Nacional, Paulo Solmucci, em um setor que soma cerca de 500 mil vagas abertas, 88% das empresas relatam dificuldade para preencher postos. Para Solmucci, o debate acelerado ignora impactos nos preços, na oferta de mão de obra e nas pequenas empresas, especialmente em setores que funcionam todos os dias.
Em âmbito nacional, a estimativa da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgada pela revista Exame, aponta que a eventual redução da jornada pode gerar custo adicional de até R$ 267 bilhões para as empresas brasileiras. No comércio, segmento ao qual o AFL está diretamente vinculado, o aumento de custos pode variar entre 8,8% e 12,7%, conforme o estudo. A pesquisa considera dois cenários para manter o volume atual de horas trabalhadas: pagamento de horas extras ou contratação de novos funcionários. Ainda segundo a entidade, a mudança implicaria aumento aproximado de 10% no valor da hora regular para trabalhadores com contratos acima de 40 horas semanais.
De quem é a conta final?
A conta final é do consumidor, conforme Paulo exemplificou, a redução da jornada de seis para cinco dias mantém o salário semanal, mas eleva o custo diário do trabalhador. Para cobrir o sexto dia e manter o estabelecimento aberto, o empregador precisaria contratar outro funcionário. Isso representaria um aumento de cerca de 20% na despesa com mão de obra. A tendência, segundo o argumento, é que esse custo adicional seja repassado ao consumidor nos preços do cardápio. O que gerará um aumento de até 10% a mais no custo para o cliente.
Para o presidente da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes Seccional Rio Grande do Sul, Leonardo Dorneles, é fundamental o debate sobre a escala 6x1 de forma responsável e transparente, considerando os impactos para empresários, trabalhadores e consumidores.
“Defendemos uma discussão ampla, transparente e fundamentada em dados concretos, especialmente porque o consumidor será diretamente afetado por qualquer mudança, seja no preço, no serviço ou na dinâmica de funcionamento dos estabelecimentos. Por isso, ressaltamos que alterações na legislação trabalhista sejam analisadas com critério, levando em conta os impactos sobre custos, geração de empregos e a sustentabilidade do setor”, afirma.

